Cooperação Sul-Sul: aprender com quem enfrenta desafios comuns

No Dia das Nações Unidas para a Cooperação Sul-Sul, celebrado em 12 de setembro, vale lembrar que conhecimento, experiência e soluções também circulam entre países do Sul Global.

Durante muito tempo, a cooperação internacional foi associada principalmente a uma lógica em que países mais ricos financiavam ou transferiam conhecimento para países em desenvolvimento. A Cooperação Sul-Sul parte de uma perspectiva diferente: países que muitas vezes compartilham desafios sociais, econômicos e institucionais podem também compartilhar experiências, tecnologias, políticas públicas e formas de responder a esses desafios.

Segundo as Nações Unidas, a Cooperação Sul-Sul é construída a partir da colaboração entre países em desenvolvimento, com base em objetivos comuns, solidariedade, respeito e benefício mútuo. Ela não pretende substituir a cooperação tradicional entre Norte e Sul, mas complementá-la, reconhecendo que conhecimento e capacidade de inovação existem em diferentes lugares.

Essa concepção ganhou força em 1978, com a adoção do Plano de Ação de Buenos Aires por 138 Estados-membros das Nações Unidas, marco importante para a cooperação técnica entre países em desenvolvimento. Desde então, governos, organizações internacionais, sociedade civil, universidades e setor privado passaram a integrar diferentes modelos de cooperação e intercâmbio.

E o que isso tem a ver com migração e refúgio?

Muito.

Questões relacionadas à migração e ao refúgio exigem cada vez mais respostas construídas em rede. Regularização documental, integração no mercado de trabalho, ensino de idiomas, proteção de direitos, atendimento em situações de vulnerabilidade e acesso a serviços públicos são desafios enfrentados em diferentes contextos.

As respostas desenvolvidas em um país, uma cidade ou uma organização podem gerar aprendizados importantes para outros territórios.

Isso não significa simplesmente copiar uma experiência considerada bem-sucedida. Significa trocar conhecimento, compreender contextos diferentes, adaptar metodologias e reconhecer que organizações e profissionais que atuam diretamente nesses territórios também produzem conhecimento relevante.

Na prática, uma organização da sociedade civil brasileira pode aprender com experiências desenvolvidas na Colômbia, no Quênia, na África do Sul ou em outros países do Sul Global. Da mesma forma, práticas construídas no Brasil podem contribuir para organizações e políticas desenvolvidas em outros contextos.

Essa circulação importa porque muda também quem reconhecemos como produtor de conhecimento.

Pessoas migrantes e refugiadas, organizações comunitárias, universidades, governos locais e organizações da sociedade civil acumulam experiências concretas sobre acolhimento, integração e proteção. Cooperação também significa criar espaços para que essas experiências sejam compartilhadas e consideradas na construção de novas respostas.

Cooperação precisa significar troca

Há, porém, um cuidado importante.

Chamar uma relação de “Sul-Sul” não garante automaticamente que ela seja horizontal. Países e instituições do Sul Global também possuem diferenças de recursos, influência e poder.

Por isso, uma cooperação efetiva precisa partir da escuta, do respeito às experiências locais e da construção conjunta. Não se trata de levar uma solução pronta para outro território, mas de reconhecer diferentes conhecimentos e desenvolver respostas que façam sentido para cada realidade.

Esse princípio se aproxima da maneira como entendemos o trabalho em rede no Instituto Adus.

A integração de pessoas migrantes e refugiadas não depende de uma única organização. Ela envolve poder público, organizações da sociedade civil, universidades, empresas, organismos internacionais e, principalmente, a participação das próprias pessoas migrantes e refugiadas.

Quanto mais esses atores conseguem compartilhar experiências, recursos e conhecimento, maior é a capacidade de construir respostas consistentes e sustentáveis.

Um debate ainda mais atual

Em 2026, as Nações Unidas celebram o Dia da Cooperação Sul-Sul com o tema “Solidarity Rising: Global Alliance for Inclusive and Innovative Development”, destacando justamente a importância de conectar soluções já desenvolvidas no Sul Global e criar condições para que possam ganhar escala. A programação deste ano também prevê o lançamento da Aliança Global para a Cooperação Sul-Sul e Triangular, plataforma facilitada pela ONU para aproximar prioridades, experiências e parceiros.

Em um mundo marcado por deslocamentos, desigualdades e desafios que atravessam fronteiras, cooperar não significa apenas transferir recursos.

Significa também compartilhar o que aprendemos, reconhecer o conhecimento produzido em diferentes territórios e construir soluções junto com quem enfrenta esses desafios todos os dias.