Diversidade, repertório cultural, experiência profissional e domínio de diferentes idiomas são alguns dos atributos que esses candidatos podem levar às empresas brasileiras.
A contratação de pessoas migrantes e refugiadas costuma aparecer nas discussões sobre diversidade e responsabilidade social. Esse compromisso é importante, especialmente em um mercado de trabalho no qual a origem, o sotaque e o desconhecimento sobre determinados documentos ainda podem criar barreiras para profissionais qualificados.
Mas essa contratação não deve ser vista apenas como uma ação de acolhimento. Pessoas migrantes e refugiadas são profissionais com formações, experiências, conhecimentos e competências que podem contribuir diretamente para os resultados das empresas.
Cada candidato possui uma trajetória própria. Há profissionais com experiência em atendimento ao público, vendas, tecnologia, administração, logística, gastronomia, saúde, educação, serviços e muitas outras áreas. Alguns construíram carreiras durante anos em seus países de origem e, ao chegar ao Brasil, precisam encontrar espaço para apresentar novamente aquilo que sabem fazer.
O desafio das empresas é olhar para essas competências sem reduzir o profissional à sua condição migratória.
Profissionais que ampliam o repertório das equipes
A presença de pessoas de diferentes origens pode tornar as equipes mais preparadas para compreender públicos diversos, identificar novas oportunidades e lidar com contextos culturais variados.
Muitos candidatos migrantes e refugiados falam dois ou mais idiomas. Além da língua materna, podem ter fluência em espanhol, francês, inglês, árabe, crioulo haitiano, lingala e outros idiomas. Essa competência pode ser especialmente relevante para empresas que atendem consumidores estrangeiros, possuem equipes internacionais, mantêm operações na América Latina ou pretendem ampliar sua atuação para outros mercados.
O conhecimento de outras línguas, porém, é apenas um dos possíveis atributos. Esses profissionais também podem trazer experiências de trabalho em outros países, conhecimento sobre diferentes mercados, capacidade de comunicação intercultural e novas formas de interpretar problemas e encontrar soluções.
Não significa que toda pessoa migrante seja multilíngue ou tenha o mesmo perfil. Significa que as empresas podem estar deixando de conhecer bons profissionais quando descartam um currículo por causa de um sotaque, de uma experiência realizada no exterior ou de uma formação que não lhes parece familiar.
Diversidade precisa estar presente nas contratações
Assumir um compromisso com a diversidade exige mais do que produzir campanhas ou divulgar posicionamentos institucionais. Esse compromisso também precisa aparecer nos processos seletivos, nas oportunidades de desenvolvimento e na composição das equipes.
Contratar pessoas migrantes e refugiadas contribui para construir ambientes de trabalho mais plurais. Também ajuda a aproximar a empresa da realidade da sociedade brasileira, formada por pessoas com diferentes histórias, culturas e modos de viver.
Isso não significa contratar alguém apenas por sua origem. Significa garantir que candidatos migrantes e refugiados possam participar dos processos em condições mais justas e ser avaliados por suas competências, experiências e potencial profissional.
Em alguns casos, pequenas mudanças já tornam a seleção mais acessível. A empresa pode revisar exigências que não são realmente necessárias para a função, evitar cobrar português avançado para atividades que não dependem desse nível de domínio e considerar experiências profissionais adquiridas fora do Brasil.
Também é importante preparar recrutadores e lideranças para lidar com documentos, sotaques, diferenças culturais e trajetórias que nem sempre seguem os formatos mais comuns nos currículos brasileiros.
Pessoas refugiadas e migrantes podem ser contratadas formalmente
Uma dúvida ainda frequente entre empresas está relacionada à documentação. É importante tratar esse tema com clareza, sem reforçar a ideia de que pessoas estrangeiras estariam necessariamente em situação irregular.
Pessoas solicitantes de refúgio estão em condição migratória regular enquanto seu pedido é analisado e podem ser contratadas formalmente no Brasil. Pessoas reconhecidas como refugiadas também têm direito ao trabalho. Com o CPF, esses profissionais podem ter o contrato registrado no eSocial e acessar a Carteira de Trabalho Digital.
No caso de outros migrantes, a possibilidade de contratação depende do visto ou da autorização de residência que permita o exercício de atividade remunerada, além do CPF. Quando esses requisitos estão atendidos, a contratação pode ser feita formalmente, seguindo a legislação trabalhista brasileira. A legislação também não exige a participação de intermediários para que migrantes e refugiados sejam contratados.
Portanto, o documento de uma pessoa refugiada ou solicitante de refúgio pode ter um formato diferente daquele que o setor de Recursos Humanos encontra com mais frequência. Isso não torna o documento menos válido nem impede a contratação.
Conhecer essas informações é uma forma de evitar que profissionais sejam eliminados de processos seletivos por desconhecimento ou insegurança administrativa.
Contratar também gera impacto econômico
A inclusão produtiva permite que pessoas migrantes e refugiadas reconstruam sua autonomia, sustentem suas famílias e participem mais plenamente da sociedade. Ao mesmo tempo, essa inserção movimenta a economia, gera renda e amplia o consumo.
Um estudo divulgado em 2026 pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública aponta que pessoas migrantes e refugiadas recolheram mais de R$ 17 bilhões em impostos e contribuições entre 2018 e 2024. Somente em 2024, cerca de 275 mil estavam formalmente empregadas no Brasil.
Esses dados mostram que a contratação não beneficia apenas o profissional contratado. Ela também contribui para o desenvolvimento econômico e para a construção de uma sociedade mais integrada.
O papel das empresas
Empresas podem participar desse processo abrindo vagas, criando processos seletivos inclusivos e estabelecendo parcerias com organizações que conhecem as necessidades e os perfis profissionais desse público.
O primeiro passo é reconhecer que pessoas migrantes e refugiadas não formam um grupo profissional homogêneo. São candidatos com diferentes níveis de escolaridade, experiências, idiomas, interesses e objetivos. Como qualquer outro profissional, precisam ser avaliados a partir das exigências reais da vaga.
Também é importante garantir uma integração adequada após a contratação. Apresentar com clareza as rotinas da empresa, explicar direitos e benefícios, criar canais de diálogo e preparar a liderança pode facilitar a adaptação de toda a equipe.
Contratar uma pessoa migrante ou refugiada não é diminuir critérios de seleção. É ampliar o alcance do recrutamento para encontrar profissionais que muitas vezes permanecem invisíveis para o mercado.
O Adus aproxima empresas e profissionais
O Instituto Adus atua na integração de pessoas refugiadas e migrantes e oferece apoio para que elas possam acessar oportunidades de trabalho no Brasil.
Os candidatos atendidos recebem orientação sobre documentação, preparação profissional e processos seletivos. As empresas parceiras, por sua vez, podem conhecer profissionais com diferentes formações, experiências e competências, aptos a participar de processos de contratação.
Ao abrir suas portas para esses candidatos, as empresas assumem um compromisso concreto com a diversidade e, ao mesmo tempo, incorporam novos talentos, idiomas, conhecimentos e perspectivas às suas equipes.
Contratar pessoas migrantes e refugiadas é reconhecer trajetórias profissionais que continuam depois da migração. É permitir que conhecimentos já construídos encontrem novas oportunidades. E é entender que uma equipe mais diversa também pode ser uma equipe mais preparada para o mundo em que vivemos.
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