Quando falamos sobre pessoas refugiadas, é comum que a conversa fique restrita às estatísticas, às crises humanitárias e aos desafios do deslocamento forçado. Esses temas são importantes, mas contam apenas uma parte da história.
A outra parte fala sobre potencial, oportunidades e integração.
Ao longo dos últimos anos, diversos jogadores que participaram ou participam de seleções nacionais carregam, de forma direta ou indireta, histórias ligadas ao refúgio. Alguns nasceram em campos de refugiados. Outros são filhos de pessoas que precisaram fugir de guerras e perseguições. Há também aqueles que passaram a infância em assentamentos humanitários antes de reconstruírem suas vidas em um novo país.
É o caso de Awer Mabil, que viveu no campo de refugiados de Kakuma, no Quênia, após sua família fugir do conflito no Sudão do Sul. Anos depois, tornou-se jogador profissional e representa a Austrália em uma Copa do Mundo.
Alphonso Davies nasceu em um campo de refugiados em Gana, depois que seus pais deixaram a Libéria durante a guerra civil. Hoje, é um dos principais nomes do futebol canadense, atleta do Bayern de Munique e Embaixador da Boa Vontade do ACNUR.
Antonio Rüdiger, zagueiro do Real Madrid e da seleção alemã, é filho de uma mulher que precisou deixar Serra Leoa por causa dos conflitos que atingiram o país. Mohamed Touré, também da seleção australiana, é filho de refugiados da mesma nacionalidade.
Ali Al-Hamadi teve sua trajetória marcada pelo deslocamento provocado pelo conflito no Iraque. Já Ermedin Demirović nasceu na Alemanha depois que seu pai fugiu da guerra na antiga Iugoslávia.
São histórias diferentes, mas que compartilham um elemento em comum: nenhuma delas seria possível sem processos de acolhimento e integração.
É importante observar que o talento desses atletas já existia. O futebol não surgiu porque eles foram acolhidos. O que surgiu foi a oportunidade para que esse talento pudesse se desenvolver.
A integração não cria potencial. Ela permite que o potencial apareça.
E essa reflexão vale para muito além do esporte.
Nem toda pessoa refugiada será atleta profissional. Assim como nem todo brasileiro será jogador de futebol. Mas toda pessoa refugiada carrega conhecimentos, experiências, sonhos e capacidades que podem contribuir para a sociedade quando encontram condições para florescer.
No Instituto Adus, vemos isso diariamente. Em nossas salas de aula de português, programas de qualificação profissional e iniciativas de empregabilidade, acompanhamos histórias de pessoas que se tornam professoras, chefs de cozinha, empreendedoras, analistas, técnicas, cuidadoras e profissionais de diversas áreas.
Quando falamos em integração, estamos falando exatamente disso: criar condições para que pessoas reconstruam suas vidas e participem plenamente da sociedade.
As histórias de Awer Mabil, Alphonso Davies, Antonio Rüdiger, Mohamed Touré, Ali Al-Hamadi e Ermedin Demirović não são exceções porque envolvem futebol. Elas apenas tornam mais visível uma verdade que vale para qualquer pessoa.
Por trás da palavra “refugiado” existe sempre alguém com potencial para construir o próprio futuro.
A questão é se estaremos dispostos a oferecer as oportunidades necessárias para que isso aconteça.

